quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Existência



Manhã de sábado
Entardecer de eternidades
Até  anoitecer estrelado 
meu amor sentou e esperou – 
mas não domino as esferas sociais 
meu poder está em palavras 
e não deposito em caixas eletrônicos ou pagam sujeiras


aos moradores de ruas - um triunfo 
aos caroneiros - paisagens
aos viajantes – lugares distantes da família


moro na cidade que sufoca o rock
perpetua o consumo 
e isso é uma merda


vou pelas ruas qual existência
amante dos anos 60
mesmo por dias violentos – fatos cotidianos hoje
pessoas – faces enferrujadas ...
polícias matando...


vou pelas ruas qual existência
coração por nuvens de algodão
e idéias sublimes – 
vou como homem
tal qual páginas passos vozes dificuldades ciências sabedorias teorias perfumes transparências e uma sintonia
           infinita com o sensível das coisas


se não entendem – sol existe de testemunha
e ainda assim vou – pela estrada...


qual existências suaves...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Corpo de Aluguel



Corpo de aluguel

Tudo se conforma em teu corpo,
se ajusta, se entremeia em tuas entranhas,
ainda que sejam áridos teus sentimentos.
Nada de novo em teu semblante obscuro.

O que há no seu frio olhar
que ninguém decifra?
E, no entanto, te procuram
os homens sedentos de amor...

Um amor feito de luxúria,
de tempestade sem vento,
de pura fantasia e fingimento –
o coração sôfrego batendo.

Sobre teu corpo naufragam navios,
rompem-se velas e caem vigorosos mastros.
Em ti, nada se perde e nada se cria –
tudo é engolido, tudo se desfia.

BELEZA


Beleza
Por que te orgulhas de tua beleza?
Acaso ela é eterna como os diamantes
Ou brilha mais que a realeza
Dos últimos corações amantes?

O que faz teu belo semblante,
Além da alheia admiração?
Acaso refresca, no teu amante,
As dores ciumentas do coração?

Não é a tua beleza temporal?
Tão frágil, embora ainda viçosa,
Espera na velhice, bem ou mal,
A derradeira e inevitável cova.

Teu orgulho falho é como a vela
Que se consome ao sabor da chama
E não tem nenhum valor na terra,
Exceto no fogo ardente de quem ama.

Acalma de teu espírito o gelado brio
E esconde o objeto de tua paixão.
A beleza só é bela quando está no cio
E só é eterna se fazes dela uma canção.

E vou ao país das palavras

E vou ao país das palavras –
absorver seu cotidiano –
tocar suas mãos em perfeita simetria –
ouvir seus pensamentos dispersos –
me perder - interiores estranhos –
de janelas em janelas.... –


quadros invisiveis pendurados paredes sintéticas –
e os problemas, poeiras pelos cantos -  quietos
promessas sob abajur – seu corpo alongado ....


outros textos na escuridão – imperfeições aos seus olhos –
ainda que leds insistam, pisquem no final da tarde – 
e voce não aceite meu convite –
a noite vem ...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Lunático (Evandro Luis Mezadri)



Parte o lunático...

Vestido pela íntima solidão
Duelando com as sombras do passado
Ruas são labirintos de fogo
aquecidas por cobertores de ossos
Árvores são testemunhas
e suas folhas espiãs
brincando entre os galhos da madrugada

Morcegos voam
entre rasantes tentativas de alegria
Cães ladram
a fome angustiada dos mal-nascidos
Gatos esquartejados nas autovias
e seus cérebros pisoteados
pelos carros rumo ao sul

Parte o lunático...

O riso mórbido como guia
Abre-se uma fenda na abóbada
Raios selvagens estupram
as estrelas donzelas
e elas derramam pelas nuvens
lágrimas vermelhas
Como o gozo de um vinho barato
sobre o solo poeirento da cidade

Parte o lunático...

Em sua hipnótica caravela
Velejando pelos prolíferos mares da loucura
A lua a beijá-lo
Uma tempestade de anseios
derramada em pernas e seios
entrelaçando as veias pulsantes dos desejos
Filho do deleite
Em uma colheita
de douradas novidades
Caminhando pelos campos antes inóspitos
A música refletindo
o erótico flerte
da vida com a morte

Espasmo

Açoite

Finda mais uma luxuriosa noite
ao ser atravessada
pela espada flamante
do divino crepúsculo

E o lunático retorna...

ao seu frio reino de tijolos à vista
Pedindo em seus credos de arremedo
para a alma uma benção
e para o corpo um esteio
quando a amante embriaguez se foi
e a esposa ressaca veio!